terça-feira, 29 de maio de 2012

Um terço da vida...

"A morte, assim chamada, é algo que faz os homens lamentarem: e ainda assim um terço da vida é passado no sono" 
 Lord Byron.

Imagem retirada do blog Goticus Eternus.

sábado, 26 de maio de 2012

Transforma-se o amador na coisa amada...

Transforma-se o amador na coisa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho logo mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semidéia,
que, como o acidente em seu sujeito,
assim co’a alma minha se conforma,
está no pensamento como idéia;
[e] o vivo e puro amor de que sou feito,
como matéria simples busca a forma.

Camões. 

domingo, 20 de maio de 2012

Entrega

Na imensidão da noite rasteja uma pena,
roubada a chama dos lampiões da rua uma alma flutua.
Perdido o sono,estou aqui
a vagar solitária como a morte.
Porque todos que abraça desfalecem,
e num silente e gelido ósculo se vão.

Caminhando neste vale tantos a chorar encontrei,
corações e espirítos envenenados a quem nada devolver a paz pode.
A luz dos seus olhos esmaeceu numa face sulcada de lágrimas,
nenhum sorrir é bem vindo no macilento e continuo prosseguir dos dias.

Ainda assim prefiro estar na rua,
minha casa está sempre tão repleta de sombras ondulantes e fria como uma pedra de sepulcro.

Ah, estrelas,distantes e benditas me recordam sempre do teu sorriso velado,
quando juntos me chamas de pálida feiticeira,porém foste tú
que me lanças-te um quebranto para me roubar o coração.
Então,toma-o que teu,reclama agora com beijos e flores a tua posse mais desejada.

Beijos e flores, compensar a anos de espera, mesmo que minha carne apodreça meu espirito bradante  e ditoso , lutará até o fim. Mesmo os demônios ou  os anjos do céu, nada temerei, pois o nosso amor triunfará.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Primavera



Verdes colinas, minha terra,
grama perfumada do sereno noturno.
Caminho devagar por tuas veredas,
desfrutando do cálido sol da alvorada.

Oh doce reino das fadas,
abençoado sou pois ouço aqui o teu cantar.
Alegres homenzinhos verdes correndo
aos meus pés agora negros da mãe terra.

Avanço rumo a campina,
embora a esquerda há o precipício.
Sedutor corre rio caudaloso
então sorrio e de longe contemplo
as lótus errantes que passam.

Algumas horas assim transcorro,
porém a alma sedenta,
de sossego e beleza,sorve lenta
e gulosa o que oferece a natureza.

Meio dia sol a pino,
procuro uma sombra para descansar.
Cerejeiras rosadas
meu coração cheio de amor,
vim aqui te ofertar.
Silenciosa encerro o rito, Zéfiro assovia
e me cobre de flores.

Na melodia da campina
Minha alma exulta,
e feliz adormeço.

Para acordar neste catre
e perceber que a caminhada
era meu enterro e nos braços de Leanan Sidhe fui repousar.

Alento


Quem, em devaneios nunca deixou-se
flanar calmo nas asas douradas da poesia?
E na harmonia das palavras abandonou
suas dores mais sofridas.
Atire a primeira pedra quem nunca desejou
o amor imortal de Romeu e Julieta,
ou enrubeceu languido com as linhas de Sade e Bocage.

A vida tem me sido rude,
ingrata e implacável.
É nos livros que busco,
refúgio no lusco fusco da fantasia,
consolo e alento na mágica da mente de poetas malditos.


Do que passou quero esquecer,
na poeira do tempo tudo há de se apagar.
E eu continuarei sonhando,o perfume das rosas,
a água correndo mansa num regato cristalino.
Uma sombra de árvore,
porque não um Ypê?
De flores roxas e miúdas me enfeitando os cabelos,
enquanto a brisa fresca brinca fazendo arabescos.
E a relva que verdeja a terra fértil e negra.

Negra como meus dias,
turvas recordações que vem me assombrar.
Então vinde,vinde ó inquietas sombras,negras como a noite em que desejei lasciva me perder.
Negro como o véu que cobre meu rosto no caixão.

sábado, 12 de maio de 2012

Meu cortejo


Meu coração é câmara mortuária,
cujas paredes estão cobertas de miasmas suspirentos e perdidos da última hora.
Alma é a pedra fria onde um corpo podre repousa no sono profundo da morte.
Um leve bater de pestanas
e adeus.

Quando sair meu cortejo sem silêncio,
quero música.
Desejo então nada mais que Strauss e Beethoven,
os melhores amigos às alças,os filhos as flores
ao amor, se vivo uma cruz.

Eu sei,
o que compete a mim agora é o túmulo que na treva guarda aquilo de mais precioso,
à sorte dos vermes e varejeiras.
Mas,que é um corpo?
Um amontoado de carne e ossos amolecidos se liquefazendo na terra úmida.
Perece, para ser húmus de outras flores,
outros espinhos.

Aos que me são caros uma saudação,
aos que odeiam, eu também.
 A vitória não é vossa,
a glória de uma vida sucumbe diante de vós.
Contempla então o céu,
essas nuvens plúmbeas e baixas são asas de querubins que choram,
esse vento gelado é o véu das Banshees que flutua com seus risos agourentos e seus gritos de mau agouro.

E saindo o cortejo chove,
não importa; a tampa já vai fechada.
E caminhando vão rápido,
quero acabar cedo.
 
Na bíblia diz: Vós que sois o sal da Terra,
talvez porém um pouco mais, basta a mim que notem as ervas daninhas.
 
É isto que somos irmãos,
adubo, esterco e só.
Porque ei de temer o futuro?
 Se meu destino é o pó.